O panapaná indígena

Crianças indígenas, enfileiradas lado a lado, apresentam canções de seus ancestrais no centro das grandes metrópoles, enquanto suas mães debruçadas em paredes ou pilares, expõem os seus trabalhos artesanais. Crianças brancas pintam suas caras nas escolas de todo o país. Semáforos testemunham os olhos amendoados, cheios de esperança, de pequenos índios na busca por uma moeda. Estes com certeza são apenas alguns dos contrastes evidenciados hoje nas cidades, em razão de anos de exploração de ontem, anteontem e de todos os dias destes 511 anos de Brasil. A forma como o índio é tratado nos dias atuais pouco se difere dos tempos da chegada das naus portuguesas.

Claro que hoje a matança é insignificante em relação a da época, porém hoje existem outras formas de silenciar suas vidas e estancar suas vozes. Não é mais necessário pegar em armas, basta os arrancar de seus habitats, tornando impossível sua forma de sobreviver, ou obrigar a migração para cidade, para mendigar, e assim o integrar na sociedade “branca” mesmo contra sua vontade.  Fazer com que vivam de seus “folclores” e da pena de executivos apressados. Introduzir o álcool e as drogas em suas vidas, como alternativas de esquecer os problemas enfrentados, desde de o dia do nascimento, é mais um meio de liquidar com suas vidas.

Todas estas ações parecem uma tentativa de levar a eles tudo que há de nefasto dentro de uma civilização, ou os trazer a civilização para que conheçam o nefasto no coração da escuridão dos centros urbanos.Não é toa que muitos indígenas chamam o dinheiro de “folha triste“, pois enxergam nele toda a motivação para a maldade exercida contra seus povos. Existem ainda hoje no Brasil, indígenas isolados que fogem a todo custo dos homens “brancos“, provável que já tenham tido alguma experiência passada de aproximação. Os traumas fizeram com que sempre buscassem a terra sem males, inalcançáveis pelos avanços da civilização. A mesma civilização que trouxe e estimula a venda de bebidas alcoólicas próxima a aldeias indígenas, as vezes por brancos outras por índios marginalizados, contrariando as leis vigentes que proíbem a venda deste tipo de mercadoria nestes locais.

A prostituição é mais um artifício que leva forçadamente mulheres e meninas indígenas das aldeias para as cidades. Mesmo tendo suas vidas violentadas das mais diversas formas, ainda são visto como selvagens, símbolos do atraso, e sem nenhum diálogo são expulsos de suas terras, em nome do avanço. Assim o índio tem seu habitat cada dia mais reduzido, o que também ocorre com sua razão de viver.

Ter tornado as civilizações indígenas pária em um território que historicamente é seu, foi apenas um resumo de anos de exploração, anos sem voz. Mais de quinhentos anos se passaram e muitos continuam achando que o índio é uma folha em branco que pode-se escrever o que quiser, da mesma forma que descrevia Pero Vaz de Caminha em sua primeira carta ao pisar nesta plagas.

Em 1.500 estimava-se que existiam cerca de 6 milhões de índios. De lá pra cá, com a matança, escravismo e catequização forçada, tivemos uma diminuição absurda desta população.

Se analisarmos apenas as duas últimas décadas, Os índios viram muitas tragédias, foram expulsos de suas aldeias por hidrelétricas e fazendeiros, sentiram muita fome nas cidades, não foram escutados, se tornaram escravos no campo, foram queimados vivos. Se tornaram sem terra, foram confundidos com mendigos, foram assassinados em conflitos por terra, retratados como praga, chamados de indolentes. Povoaram pontes e viadutos, armaram barracos na beira de estradas, dormiram no chão, esmolaram muito pela sobrevivência e tornaram-se até atração de zoológico. Viram enormes florestas serem devastadas assim como suas vidas desde os tempos de escambo.

Já bastava que suas histórias pertencessem a um folclore longínquo, e não a história da pátria que não acolhe e nem respeita seus filhos. Já bastava que nas escolas são estudados superficialmente, sem que se mencione as suas culturas, diferenças, troncos lingüísticos e família lingüística. O esquecimento de sua cultura é evidenciado todos os dias e também no fato de o maior estudioso dos grupos indígenas brasileiros ter sido um alemão, Curt “Niemandaju” Unckel, que escreveu mais de 50 livros sobre mais de 40 tribos brasileiras,  dos quais menos de dez foram traduzidos para o português.

Hoje é Dia do Índio, mas o que eles teriam para comemorar. Comemorar anos de exploração? Celebrar o desrespeito as suas crenças? Festejar a desapropriação de suas terras? A catequização forçada? A marginalização? Suas lágrimas? O que devem comemorar?

O cidadão indígena quer apenas sobreviver em paz, ter o que comer, onde morar. Não se tratam de seres sedentos por dinheiro e poder, salvo alguns já hipnotizados pelas riquezas do universo “civilizado”. A grande maioria só quer a garantia de um futuro digno para que todos da aldeia possam viver bem. Isso para eles é como voar, um sonho distante, e por isso lutam. Não por um sonho individual, mas por um desejo coletivo de viverem em paz nas florestas, e sempre juntos, como em um panapaná.

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Um filme de mau gosto

 Realmente é uma tarefa extremamente difícil a de escrever sobre qualquer que seja a tragédia. As palavras se confundem com sentimentos, os pensamentos calam frente a tristeza. Ainda mais em um tempo em que as frases de um sentimento profundo podem ser facilmente confundidas em meio a shows midiáticos, que transformam a vida em uma novela sem dublê.

Há onze dias atrás, a morte de doze crianças em uma escola pública de Realengo, bairro da periferia carioca, chocaram o Brasil e evidenciaram a falta de tato da imprensa, desde como lidar com o fato e seus desdobramentos, até principalmente em relação a maneira de lidar com a dor dos que ficaram, sobreviventes ou parentes.

A verdade é que a tragédia sempre atraí público, e parece que só quando ela acontece, é que a chamada “grande mídia” incentiva a reflexão. Claro que uma reflexão limitada, que não abrange todos os poréns, que fazem com que o risco de se viver em uma sociedade que violenta e excluí se torne realidade, ou para muitos, uma estatística. A reflexão é delimitada pelo caso, sem abranger todo o contexto que ela se insere. É preferível ser pontual do que abrangente.

A alma veste o luto todos os dias, com esquecimento de vidas que agonizam a margem da sociedade. As marcas de um passado não cicatrizado podem ser vistas em todo canto. Pedir paz sem promover justiça, sempre será utopia, e assim a sociedade continuará criando homicidas. O martelo da justiça sempre tem mais peso para quem não tem poder, e a liberdade é como um objeto a venda.

Esta semana o fogo que aquecia algumas vidas se apagou, deixando marcas que vão além das filmagens e da exploração da dor. As câmeras não precisam focar lágrimas para mostrar a tristeza de mães que enterram seus filhos, contrariando a lógica natural. Seus rostos já destacam as porradas da vida.

Não é preciso transformar um assassino em protagonista de Hollywood, ou em mais um garoto propaganda de uma cidade fria, para se perceber que no Brasil nem tudo são flores, bunda e futebol. È muito fácil vender o Brasil como maravilhoso, basta fazer um olhar supérfluo. O raio X deve ser feito, não só para reparar heranças e preconceitos, como também para dar oportunidade a cada cidadão, para sermos de fato, um país de todos. Enquanto isso não acontecer com certeza não será o fim de nossa guerra urbana que sempre cobra mais daqueles que já estão acostumados a colecionar sofrimento e frustrações.

A tragédia ocorrida na escola carioca alcançou o coração de pessoas que as estatísticas jamais atingiram, por mais alarmantes que estas sejam. De acordo com o Ministério da Saúde, a cada dois dias, em média, cinco crianças de até 14 anos morrem vítimas de agressão. Já o estudo intitulado o Mapa da Violência 2011, divulgado recentemente, mostra que em 2008, ano mais recente com dados disponíveis na pesquisa, a juventude de 15 a 24 anos representava 18,3% da população brasileira, enquanto os homicídios destes jovens, no mesmo ano, foi de 36,6% (18.321) do total de homicídios no país.

Mais uma tragédia acontece no Brasil, mais vidas que se vão cedo de mais, as lágrimas nunca secarão para as famílias. Entretanto para a maioria, logo a tragédia será esquecida e se tornará apenas parte de mais alguma estatística. Todos já poderão preparar suas vidas para as próximas covardias, que serão, evidentemente, exploradas pelos veículos de comunicação, acostumados a transformar vidas em um filme de mau gosto, onde jamais se assiste um final feliz, mas sempre atraí  milhares de espectadores.

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Sob a luz da espera

Quando surge um grito de esperança, percebemos que vale a pena acreditar em uma mudança e que ela está mais próxima do que imaginamos. Estes gritos ecoam todo dia em inúmeros berçários espalhados pelo país e talvez neles esteja a última gota de esperança do povo em conter suas lágrimas e deixar de esperar.

Com os seus santos sobrecarregados com tantos problemas para serem resolvidos, o povo, e também os santos em que acreditam, esperam que esta geração de bebês que nasce nos dias de hoje quando se tornarem adultos não se corrompam como as gerações que a antecederam.

Vivendo em um país onde é provado quase que diariamente que o poder corrompe, fica realmente difícil acreditar que no meio de tantos poderosos corruptos possa surgir um ou mais seres incorruptíveis em todos os aspectos. Talvez por isso, seja mais fácil pensar e acreditar, que a esperada esperança está ainda engatinhando ou sequer veio ao mundo.

O que estou querendo dizer não é que o mundo ou o Brasil está perdido, mas sim que este é o momento exato de tomarmos consciência, que o futuro está nascendo hoje , e que nós, cidadãos e autoridades , temos o dever e a urgência de olhar a infância, da gravidez à adolescência, com outros olhos. É imprescindível a criação de novas políticas e atitudes que visem dar aos futuros adultos condições de desenvolvimento e educação que lhes permita viver e construir um mundo melhor.

Embora possa parecer que a solução está no futuro, seu caminho começa já, mas requer atenção, dedicação e paciência de sobra, para que cada vez que uma mulher dê a luz a uma criança, que essa luz possa ao menos iluminar a nossa espera.

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Celulares de Sangue

Celulares pingam sangue em todos os cantos do mundo, enquanto vozes e vidas de muitos são silenciadas por calibres. A tecnologia cobra em vidas inocentes o preço do avanço. Em buracos escuros de minas de exploração, a mais de cem metros do chão, é cada vez mais difícil enxergar a luz da esperança, em um ambiente tomado pela escuridão de estupros, escravidão, e guerra.

As lágrimas molham o rosto de milhares de africanos unicamente para empresas multiplicarem seu capital. Celulares aproximam pessoas e distanciam outras da esperança, acendem luzes na tela e apagam milhares fora dela.  A luz dos olhos de homens, meninos e mulheres refletem um contexto de décadas de exploração.

O menino chamado Chance, que hoje tem 16 anos, é mais um entre os milhares de garotos que trabalham em minas africanas. Com seu coração tomado por possibilidades de melhorar de vida, Chance, assim como milhares de outros meninos, da África Central e Ocidental, deixou sua família pra trás, para aos 13 anos, ingressar no trabalho de exploração de minérios em uma entre tantas outras cidades, no meio da selva africana, que protagonizam o cenário da mineração no continente mais pobre da Terra.

Chance nasceu e trabalha na República Democrática  do Congo, mas o drama de sua vida é a brutal realidade de milhares de pessoas na Uganda, Ruanda, Angola, Libéria e Serra Leoa.  Chance, assim como seus colegas adultos e todas as outras crianças que vivenciam a mesma situação, jamais pode enxergar democracia no mundo que o cerca, e muito menos pode ver motivos pra prosseguir acreditando em mudanças no universo obscuro que todo dia violenta sua infância.

Coltan e Volframita, utilizados em aparelhos eletrônicos como o telefone celular, são alguns dos minerais que homens e crianças precisam encontrar para garantir o alimento de cada dia, seu e de sua família. Pagando grandes tributos por dia para trabalharem, estas humildes pessoas procuram minerais que logo serão traduzidos em armas nas mãos dos senhores da guerra que exploram as minas e estupram suas mães e filhas. Estas mãos que fazem a guerra são as mesmas mãos que repassam a matéria prima encontrada para fornecedores de grandes indústrias da tecnologia que logo a utilizarão em celulares, entre outras tecnologias.

As mãos calejadas de povos sofridos, garantem que a tecnologia prospere enquanto vêm a suas famílias devastadas por aqueles que o pagam para continuar espalhando o seu terror. Na mesma terra em que mulheres são estupradas na frente de seus maridos, homens mortos na frente de suas esposas, crianças e adultos, quando não são soldados, trabalham, explorando o solo nacional, em condições desumanas para que os senhores da guerra possam sorrir ao espalhar o medo em seu povo.

Porém, neste mundo, quem ri por último sempre ri melhor, e neste caso a maior gargalhada vem dos proprietários das empresas de telefonia e tecnologia que a comercializam e enriquecem através da venda de produtos que jamais especificam a origem material.

O sangue esparramado de milhares causa o choro de suas famílias e amigos, e a indignação de todos que sentem na alma sua dor, e mostra que nem todos entenderam a piada, de alguns poucos, da cor do poder, gargalharem das lágrimas e rios de sangue derramados de milhares, da cor da miséria. Mais um celular é vendido, a tecnologia prospera, mais uma lágrima rola e toca a camisa ensangüentada de mais um corpo no chão, a esperança já não mais espera e se deita em mesmo solo.

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* O texto acima aborda a triste realidade da África Central e Ocidental. Estima-se que mais de 5 milhões de pessoas tenham morrido em conflitos originados em minas localizadas nesta região, especialmente na República Democrática do Congo, Uganda, Ruanda, Angola, Libéria e Serra Leoa. A forma como essas riquezas são exploradas, à base do trabalho escravo e de uma administração corrupta, acaba colaborando para um mergulho ainda mais profundo na miséria extrema, além de incentivar e financiar crimes.  Muitas vezes, a corrupção ocorre dentro do próprio governo, entre os responsáveis pela administração das minas, e é determinante para o desencadeamento dos conflitos. Contando com um estado deteriorado, os países que vivem da mineração acabam se tornando ainda regiões propícias para o tráfico de armas, munição e drogas.

Assim como as jóias, produtos eletrônicos, como celulares, também participam diretamente da guerra, já que contam em sua estrutura com metais como o volframita (uma combinação de tungstato de manganês e tungstato de ferro)  e coltan (mistura dos minerais columbita e tantalita) , encontrados na região. Um estudo recente da ONG Global Witness,  levanta suspeitas sobre o envolvimento de 240 empresas na ligação entre as indústrias de mineração, metalurgia e tecnologia. A instituição apontou grandes empresas européias e asiáticas como corrompidas e outras várias como suspeitas por não esclarecer ao consumidor sobre seus fornecedores. Não há hoje empresas de telefones que garantam que a matéria prima de sua tecnologia não seja oriunda de regiões de conflitos.

Milhões de mulheres são estupradas todos os anos na mesma região de exploração mineral. Mais de 80 milhões de meninos africanos, entre 5 e 14 anos, são obrigadas a trabalhar, grande parte como soldados e mineradores. Há 12 milhões de órfãos da AIDS na África e quase 4 milhões de crianças refugiadas de guerras. Mais de 5 milhões de pessoas morreram em conflitos desencadeados pela extração de metais na África, usados na fabricação de celulares e outras tecnologias.

O mercado de venda de celulares mobiliza anualmente cerca de 170 bilhões de dólares e aumenta cada ano esta receita. É previsto segundo pesquisas, que o mercado total de telefones celulares deva atingir a cifra de 341,4 bilhões de dólares em 2015. Em 2010 as empresas de tecnologia lideraram o ranking das mais valiosas do mundo, das dez marcas, seis têm ligação direta com produtos tecnológicos, só a Nokia, que ficou na oitava posição, foi avaliada em 29,5 bilhões.

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Os “pesticidas” de uma guerra

Desde que derrubou o rei Idris em 1969, Muammar Kaddafi, já havia sofrido alguns atentados no intuito de que o mesmo se desgarrasse do poder, porém nada perto da tentativa que ocorre nas últimas semanas, onde forças internacionais se aliaram a rebeldes para derrubá-lo. A tomada do poder por Kaddafi, em 1969, foi viabilizada pela impopularidade do monarca Idris na Líbia, devido a exploração americana à riquezas do país e a presença dos mesmos, consolidadas através de comércios, bares e boates espalhados nas principais cidades. Esta presença se dava através de alianças entre os dois países, realizadas nos 18 anos de poder do rei.

Nestes 42 anos de ditadura de Kaddafi, o chamado “líder fraterno” da Líbia teve seu governo marcado por relações de amor e ódio, idas e vindas, com os EUA. A relação de gato e rato dos dois países foi mais uma vez agravada neste ano. Relação que se estremeceu desde que Kaddafi assumiu o poder e retirou americanos do território líbio, afirmando defender as riquezas e cultura nacional. Logo esta proteção ao seu povo se tornou ódio ao “inimigo” e se traduziu em financiamento de ações terroristas, matando diversos civis, americanos, e seu aliados israelenses.

Inicialmente o governo Kaddafi lutou pela preservação da cultura, religião e tesouro nacional. Porém no ano seguinte a tomada do poder, passou a articular e apoiar organizações, terroristas ou não, anti-americanas e anti- israelenses. O líder só interrompeu seu apoio ao terrorismo, quando os EUA reagiram a um dos ataques do ditador líbio, que matou dois norte-americanos. Na ocasião, os EUA bombardearam Trípoli e Benghazi, e impuseram sanções econômicas contra o país. O ataque dos Estados Unidos levaram as vidas da mulher e da filha do ditador, e por conseqüência sossegou o ímpeto do mesmo, entretanto, provocou também sanções por parte da ONU ao país do Oriente Médio. Tempos depois o ditador viu seu governo enfraquecido e ameaçado por alguns, ainda que poucos, atentados. O último deles, em 1998, o baleou e foi determinante para mudança de sua postura diante do governo norte-americano.

A década de 2000 foi um dos momentos mais pacificadores do líder da Líbia no poder, onde pagou indenizações para famílias de mortos em atentados por ele patrocinados, recebeu visita de líderes das principais potencias internacionais, incluindo o então presidente George Bush, e também anunciou sua desistência por armas de destruição em massa, afirmando sua pretensão de se juntar à guerra ao terror. Com a face de “bom moço”, Kaddafi conseguiu que as sanções à seu país chegassem ao fim e ganhou certa simpatia do governo dos Estados Unidos.

Agora em 2011 mais uma vez os dois países entraram em atrito, porém desta vez a maior parte de seu povo não está mais apoiando o ditador. O governo norte-americano não demorou muito para congelar todas as contas pessoais de Kaddafi, algo que não foi feito até agora com o ex-ditador Mubarak do Egito, mesmo com tantos pedidos do povo egípcio. Em fevereiro o líder da Líbia, chamou seu opositores líbios de “baratas“, mesmo termo que os hutus chamavam os tutsis quando dizimaram 800 mil deles em Ruanda e também a mesma denominação do governo nazista aos judeus. Se Kaddafi os considera “baratas“, deixou de se considerar irmão de seu povo, “líder fraterno”, já que baratas não esmagam baratas. Deixou as conversas de fraternidade de lado para mostrar a verdadeira face de uma figura esmagadora, que pisa em qualquer vida sem receios.

Entretanto os EUA estão determinados a mostrar a Kaddafi quem é a “barata” de quem, e juntaram suas forças militares com as de países europeus e de líbios rebeldes, para expandir à democracia a base da bala. A intenção é derrubar o ditador, mas por enquanto esta guerra parece uma caça a um rato que se esconde em qualquer buraco para cansar o caçador e retornar aos seus domínios. Mesmo com o apoio americano, e independentemente de quantos civis a caçada irá levar desta terra, o povo líbio tem que saber, que nem ditadores e nem os norte-americanos irão jamais agir como seus irmãos, e no máximo agirão como “pesticidas” a fim de eliminar ou caçar os “ratos” e “baratas” que o incomodam.

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A Saga de Bolsonaro

Eis que esta semana um ex-militar e deputado federal brasileiro, Jair Messias Bolsonaro (PP), através de mais uma de suas polêmicas aparições na mídia, colocou em fúria diversos setores da sociedade, incendiando debates em todo país. O polêmico deputado federal  que  tem em seu currículo blasfêmias e falas de baixo calão dirigidas à diversos políticos, de diferentes correntes ideológicas, abriu  uma sucessão de debates na Câmara, na mídia, na blogosfera e também entre a sociedade civil. Temas debatidos pelo representante do PP em sua trajetória política, como ditadura, preconceito, cotas raciais, maioridade penal, privatização, homofobia e educação voltaram à tona para a pauta nacional.

O que culminou os debates foi a última entrevista de Bolsonaro  ao programa CQC (http://www.youtube.com/watch?v=y8imZAGzO_c), onde evidenciou sua opiniões relativas a  assuntos como ditadura brasileira, governos militares, presidenta Dilma e Lula, possibilidade de o Brasil ter a bomba atômica, FHC, tortura, políticas direcionada á homossexuais, educação de filhos, costumes, preservação da família, cotas raciais, e o que mais gerou polêmica, racismo. Como de costume em suas opiniões, nesta entrevista, Bolsonaro evidenciou seus pontos de vista que diferem drasticamente do consenso político da maioria da população, gerando ódio e revolta em muitos cidadãos e admiração em outros.

O pai do deputado estadual Flávio Bolsonaro e do vereador Carlos Bolsonaro, teve a página da sua família (http://familiabolsonaro.blogspot.com/) tomada por blasfêmias, não piores das que Jair proferiu em 2008, na Câmara, contra a hoje Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário. A página tem caráter informal, apresentando fotos do deputado e seus filhos também políticos, fruto da união com a ex-vereadora Rogéria Bolsonaro. Neste site, Jair, Flávio e Carlos aparecem em trajes de banho, em passeios de lancha, jogos de futebol, pescarias e jogos de paintball.

O site da família não foi o único que sofreu represálias, o portal do deputado Flávio (http://www.flaviobolsonaro.com.br/) e do vereador Carlos (http://www.carlosbolsonaro.com.br/), que exibiam na abertura uma nota de esclarecimento escrita pelo pai, também não foram poupados de críticas e xingamentos.  Mas ainda havia um certo contraponto marcado por elogios à postura da família Bolsonaro vinda de alguns poucos internautas.

Carlos Bolsonaro, que exibe na parte interior do braço direito uma tatuagem com o rosto do pai, assim como seu irmão Flávio, desde que a entrevista do programa da Band foi ao ar se dedicou no twitter, para através de sua página, esclarecer e perpetuar a opinião do pai. Tanto na nota de abertura de suas páginas na web, quanto em seus perfis no twitter, os irmãos Bolsonaro repetiram as afirmações do pai, de que o mesmo não teria ouvido a última questão que denunciou grande evidência de racismo na resposta do deputado progressista.  Os irmãos aproveitaram a defesa do pai para também atacar, chamando a todos de oportunistas.

O debate não pára por aí, páginas de jornais, blogueiros e jornalistas, foram bombardeados de comentários de opiniões conflitantes, dos que repudiavam as idéias defendidas pela família e dos que concordavam. Em ambos os lados o tom dos comentários, salvo algumas exceções, era raivoso e demonstrava ódio, exorcizando a opinião adversa com os chamados “palavrões“.

Seja lá qual for a opinião, tanto na esfera política quanto na sociedade civil ,deve ser feita de maneira civilizada, aceitando as diferenças.  O conflito de posições, mesmo que tenha gerado raiva em alguns, ao menos levantou debates pertinentes, e indagação de setores da sociedade. As indagações mais pertinentes dentro do quadro de questionamentos deste debate parte dos opositores de Bolsonaro. Uma das mais provocativas críticas é a que se o deputado se define como defensor da família brasileira, e fez de tudo para eleger sua ex-esposa e seus dois filhos, ele deve deixar claro à qual família ele está se referindo.

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A Primavera Indomável

A Primavera Árabe parece distante de encontrar o seu solstício, fato que determinaria o fim do massacre de décadas de imposições de castas sociais, econômicas ou religiosas. Agora as flores da revolução, na maioria dos lugares, enfrentam dificuldades para crescer, impedidas por governos autoritários, dispostos a usar a força letal para preservar seu poder. Inspirada em movimentos pacíficos vitoriosos na Tunísia e Egito, jovens ativistas de direitos humanos de todo o chamado Mundo Árabe acreditaram na mudança, na revolução, no poder do povo em reger seu destino. Logo os verdadeiros proprietários do poder mostraram suas armas para conter revoltas de civis muitas vezes desarmados, a fim de calar suas vozes e idéias, silenciando suas vidas.

No início da Primavera Árabe, os jovens nativos, através de manifestações, se mostraram  destemidos e se imaginaram como leões indomáveis. Estávamos diante do primeiro sintoma de mudança, os jovens árabes estavam livres do medo que dominou a geração de seus pais.  Estavam lutando por mudanças na configuração do sistema de seus países, com a pretensão de derrubar governos e hierarquias a fim de substituir o velho pelo novo.

O ímpeto juvenil por mudanças foi estancado, primeiro na Líbia, onde o ditador mostrou suas garras de um leão indomável ao lançar tropas contra o seu povo, em seguida , no Bahrein o rei Hamad Bin Isa com o apoio de tanques sauditas, também atacou civis. O apoio da Arábia Saudita fez parte do jogo de interesses, na intenção de calar a revolta de manifestantes em sua grande maioria xiita contra o rei sunita do Bahrein. Sauditas acreditam que a derrubada do rei representaria um alinhamento com o Irã, também xiita.

Agora a situação mudou, desde que as flores da esperança da Primavera Árabe foram podadas por aliados de Kadaffi e Hamad, no intuito de impedir que a germinação desta nova consciência de povos árabes encontre solo fértil para sobreviver. Porém o movimento não morreu, continua vivo, guiando transições das revoluções vencedoras, mudando realidades em certos países árabes, como Marrocos e Jordânia, e se desenrolando na luta por mudança em outros, como Iêmen e Argélia. A linha de frente do movimento continua sendo basicamente de jovens que mobilizam protestos, e que burlam vigilância e limites impostos por seus governos tiranos.  A internet, o meio de comunicação mais jovem no mundo, e as ferramentas que esta dispõe, são grandes aliadas da propagação no alcance de suas idéias.

A juventude que lidera os movimentos se desatrelou, quase totalmente, de discursos religiosos e de lideranças tradicionais para legitimar a sua grande vontade por mudança sem reparos, estrutural. A voz dos jovens, além de assumir a liderança, ecoou entre seus povos, norteando a todos, independente da idade .  As vitórias na Tunísia e Egito, trouxeram um sentimento ainda mais forte de coragem ao jovem árabe, nascido em um governo de repressão. Mas logo este sentimento foi reprimido, pelas forças de Kadaffi que abriram fogo, pelo rei Hamad que oprimiu manifestantes no Bahrein e pelas forças de apoio do Governo no Iêmen que mataram dezenas de seus cidadãos, além de outras atrocidades dos governos dos demais países árabes que lutam para democracia florescer.

Os jovens idealistas do movimento foram obrigados a se esconder, e agora amedrontados pela dura realidade da repressão aguardam o momento certo para reagirem. Na Líbia esta reação veio com apoio dos EUA e países europeus, porém nos demais países da região sobram poucas alternativas para os movimentos renascerem das cinzas. O que resta neste momento aos povos destas nações é lutar pela paz, resistir a agressão e aguardar a poeira do conflito baixar.

O futuro é incerto nestas terras arenosas, o povo oprimido é obrigado a se calar. O leão mostrou suas garras através da opressão armada a fim de sufocar a primavera. Mesmo assim, a Primavera Árabe tem demonstrado que existe exatamente como uma estação, a qual nenhum ser humano é capaz de impor o seu fim antes que seu ciclo se complete ao natural. O que há de indomável no Mundo Árabe, não são os jovens que se manifestam e nem as forças que silenciam estas vozes, é o pensamento e a vontade de conhecer a verdadeira liberdade.

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